Essa musiquinha nunca saiu da minha cabeça.
Assim como outras de desenhos animados comerciais dos anos sessenta e setenta.
Revendo esse filme agora, fiquei curioso em saber quem animou, quem filetou, quem pintou os acetatos, se foi filmado na table-top da Truca, ou do Daniel Messias, ou do Luis Briquet.
Então recorri ao amigo, e mestre, Máximo Barro, atual professor da FAAP, por sua moviola na 13 de maio, no "Bixiga", passaram os mais importantes longas, curtas e desenhos animados paulistas. "... O trabalho foi realizado por um antigo jornalista do Estadão, José Maria do Prado. Antigamente ele morava no prédio em que também habitava o Walter Khouri. Depois mudou..."
Então, Máximo e eu, gostaríamos que quem tiver informações entrasse em contato conosco.
Quem sentir o gostinho do romantismo da época, também fique a vontade para comentar,
se possível tomando uma seleta xícara de café...
Inclua uma breve opinião sobre o café, pediu-me Maurício Squarisi ao me convidar para esse blog. Não estranhe o leitor que, sendo assim acessório o tema, eu comece justamente pelo cafezinho. É que assim fazia Vó Chiquita quando, de ano em ano, chegavam Comadre Idelvina e Zezé lá de Minas. Quando chegava, a pé, Tia Lia ou a sobrinha Dilma, em suas vistas semanais. Quando, fim das tardes, o filho Toninho chegava do serviço. Café em casa de minha vó foi sempre um rito: ela o coava para quem chegasse, fosse de longe ou de perto, fosse de ontem ou de anos. Um paninho de crochê sobre a mesa azul servia de bandeja para a garrafa e as xícaras duralex. E nada mais era preciso para que prazerosamente café e conversa se misturassem.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades? Não sei de pesquisa a respeito do gosto dos jovens pela bebida que, ainda hoje, me tem gosto de conversa aquecedora. Mas sei de pesquisa acadêmica sobre o que parte deles pensa das aulas de literatura sem conversa: “o aluno, de modo geral, rejeita a aula monológica, puramente expositiva, que parte exclusivamente da enunciação do professor e/ou do autor do livro didático” [1]·.
A queixa da moçada nada deve para a fala especializada:
(...) a leitura de Literatura tem-se tornado cada vez mais rarefeita no âmbito escolar, como bem observou Regina Zilberman (2003, p. 258), seja porque diluída em meio aos vários tipos de discurso ou de textos, seja porque tem sido substituída por resumos, compilações, etc. Por isso, faz-se necessário e urgente o letramento literário: empreender esforços no sentido de dotar o educando da capacidade de se apropriar da literatura, tendo dela a experiência literária.[2]
Em ambos os focos a mesma (desanimadora) visão: a literatura - aquele mundo de contradições, de várias ordens, em que, paradoxalmente nos organizamos pela experiência estética - não tem chegado à sala de aula. Seu lugar tem sido usurpado por discursos enfadonhos e autoritários, e que se arrogam o direito de suprimir a leitura do outro. Não, eu não me esqueci da dificuldade que é oferecer aos alunos de hoje textos de épocas distantes, com valores diferentes, inclusive linguísticos. É que ao tomar café com minha vó aprendi também como as diferentes temporalidades podem se entrecruzar e inaugurar portos de passagem, até então insuspeitados.
Algumas possibilidades? Também nesse questionamento vale a pena ouvir os meninos:
Os entrevistados compreendem que assistir a filmes ou a peças teatrais adaptados de obras literárias é uma forma agradável e estimulante de ter contato com a literatura. Compreendem também que estabelecer semelhanças temáticas ou estéticas entre o objeto de estudo e a música ou o cinema contemporâneos, por exemplo, é uma forma interessante de atualizar os conteúdos e de aproximá-los dos objetos culturais em circulação hoje.[3]
Quem conhece OsHai-kais do príncipe tem argumentos de sobra para concordar com essas sugestões estudantis. A animação acerta a mão em mesclar as linguagens música, cinema e literatura. Ambientado na era do rádio (com locução PRIMOROSA de Vidal Ramos!), o roteiro dá conta de explorar os aspectos biográficos e historiográficos entorno de Guilherme de Almeida e de provocar a leitura de seus haicais, cujos sentidos são lindamente desdobrados em músicas e desenhos.
O texto literário não deve ser traído, resumido, resenhado, para que os alunos tenham lá uma distante (e perniciosa) ideia do que é ele. Para responder às expectativas de leitores que lidam tão bem com diferentes semioses, como esses nossos jovens, não faltam produções culturais inteligentes e interessantes que podem conduzir à experiência da leitura literária, in stricto sensu. Explorá-las didaticamente seria um “bule cheio” para muita conversa...
O trabalho de Maurício e sua equipe é uma delas. Vi e revi. E quis reler o poeta. Vi também o making in of. Aliás, para os olhos leigos, saber dos bastidores da animação foi um pouco como ver o mágico explicar o truque: entendemos todos os passos, mas saímos com a sensação de que a mágica mesmo nos escapa. Ainda permaneço me perguntando como a animação dos desenhos encarnou tão perfeitamente a música e a poesia.
* É doutora em Letras pela FFLCH/USP e professora universitária.
[1] CEREJA, William. Uma proposta dialógica de ensino de literatura no ensino médio. Tese de doutorado. PUC/SP, 2004.
[2] BRASIL, MEC. Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). Volume1: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006
O filme Boi Arua de Chico Liberato vai passar em Sao Paulo em 14 de abril na Cinemateca.
Boi Aruá, de Francisco Liberato
Salvador/Bahia, 1984, 35mm, cor, 59’ | Exibição em DVD
Baseado no folclore sertanejo, o filme narra a história de um fazendeiro arrogante, orgulhoso de seu poder, que é desafiado pela figura fantástica do Boi Aruá. Pioneiro do cinema de animação na Bahia – Boi Aruá é o primeiro longa do gênero feito no estado – Francisco Liberato é também artista plástico e diretor de outros filmes de animação, como o premiado curta-metragem Muçagambira (1982). Participou do movimento que sacudiu a vida cultural baiana nos anos 1960. Exibido em festivais europeus, Boi Aruá foi agraciado pela UNESCO com a láurea de "Referência de Valores Culturais para a Infância e Juventude". Livre
qui 14 19h00 | sáb 16 16h00
CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
próxima ao Metrô Vila Mariana
Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215) www.cinemateca.gov.br
06/abr – 12h30; 13h; 13h30 O BURRICO E O BEM-TE-VI de Maurício Squarisi | 7´ | animação | SP | 2008 | livre
A violoncelista e o violinista se preparam para tocar “Burrico-de-Pau”, música composta por Carlos Gomes em 1894.
SERVIÇO Curta no Almoço - 8ª edição Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Cinemas 1 e 2
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô: Estação Carioca) Telefone: (21) 2544-4080
Entrada Franca
Retirada dos ingressos começa 30 minutos antes de cada sessão
Acesso para portadores de necessidades especiais. Programação completa: www.caixa.gov.br/caixacultural
Em pleno sucesso há mais de 15 anos, o programa Zoom, da Tv Cultura, é tirado do ar pela atual presidência da emissora.
A roteirista e diretora do Zoom, Daniela Branzini, fala um pouco sobre o programa.
Café-Grafis - Pode falar um pouco de sua formação em televisão ?
Daniela Branzini - Comecei minha carreira dirigindo um programa eleitoral para Rádio e TV em 1982 no Mato Grosso do Sul e com pé direito, o candidato foi eleito! De volta a Sâo Paulo fui trabalhar na TV Cultura produzindo a parte ao vivo do programa Revistinha, escolhido como melhor programa infantil em 1988 e 1989. Em 1990 mudei para Milão,na Itália. Fiz um curso de direção cinematográfica e coordenei a produção de 60 documentários, rodados na Itália , França, Inglaterra, patrocinados pela Sony e que foram exibidos em três emissoras italianas. Voltei ao Brasil e desde então trabalhei na TV Cultura, no Zoom.
Café-Grafis -Quando iniciou a exibição do programa Zoom ? Daniela Branzini - O Zoom foi ao ar pela primeira vez em novembro de 1995 e foi criado para atender uma demanda de exibição de médias-metragens que eram enviados para tv e que não tinham uma janela de exibição. Ao longo desses 15 anos de existência o programa foi alterando o seu formato, passou a exibir vídeo,video-arte, animação, documentários e ficções. Depois sofreu nova reformulação e passamos a produzir entrevistas e cobrir festivais nacionais e internacionais.
Café-Grafis -Qual a sua função no programa ?
Daniela Branzini - Era a diretora e roteirista do Zoom.
Café-Grafis -Vocês tem um retorno de como o programa era avaliado pelo público ? Daniela Branzini - O Programa tinha um retorno significativo de audiência dentro dos padrões da TV Cultura. Por anos universidades do país solicitavam cópias do Zoom para discussão em sala de aula e para manter em seu acervo. Outra demonstração do público sempre foi o envio de uma grande quantidade de curtas para exibição, além da comunicação direta por carta e e-mail. Quando o programa criou o concurso para apresentador, recebemos um número enorme de vídeos, que surpreendeu até a direção da emissora na época.
Café-Grafis -E pelos cineastas ?
Daniela Branzini - O Zoom foi por muitos anos a única janela na TV aberta para a exibição da produção de curtas no país,que num certo período foi a única produção cinematográfica que tivemos! Todos passaram em algum momento pelo Zoom, ou com o seu vídeo, ou curta ou para falar da experiência do primeiro longa. Nas comemorações dos 10 anos e dos 15 anos do programas ouvimos verdadeiras declarações de amor ao Zoom.
Café-Grafis -Como era a participação dos filmes de animação no programa ?
Daniela Branzini - Sempre foi significativa e foi aumentando de acordo com o aumento da produção nesses últimos anos. Sem falar no fato de que é um gênero que agrada muito ao público!
Café-Grafis -E dos animadores ?
Daniela Branzini - Uma das características do programa era provocar a interação com os realizadores convidando a participar da elaboração do Zoom com as videocrônicas. Muitos animadores prepararam matérias para nós.Você que vem acompanhando o desenvolvimento do cinema de animação durante esses anos,
Café-Grafis - Você que vem acompanhando o desenvolvimento do cinema de animação durante esses anos, como vê a evolução dessa arte no Brasil ?
Daniela Branzini - É indiscutível o crescimento do volume de produção, que se beneficiou da tecnologia digital, mas também da melhora na qualidade desta produção, que geralmente tem no humor um ingrediente especial. Mas acho que falta desenvolver uma escala industrial para a produção de séries de animação voltadas especificamente para TV.
Café-Grafis -Na sua opinião, como pode se dar a exibição de animações na televisão ?
Daniela Branzini - Acho que as séries, tanto para um público infantil como adulto, são o caminho mais viável para compor uma grade de exibição e também sob o ponto de vista de faturamento.
Café-Grafis -Qual o motivo de o programa Zoom sair do ar na Tv Cultura ? Daniela Branzini - Essa é uma pergunta que precisa ser respondida pelo atual presidente. Mas se você pensar que a atual gestão investiu numa grade de documentários sob a tutela do É Tudo verdade, numa faixa de segunda a sexta e na exibição dos filmes da Mostra Internacional, duas vezes por semana... não dá para entender a decisão de tirar do ar o único programa da casa que poderia interligar essa programação, uma vez que o público do Zoom sempre teve um perfil cinéfilo e portanto o programa deveria ser utilizado como um grande divulgador desta "nova" programação da casa. Só dá para pensar que é mesmo uma estratégia de um economista e não de um profissional de comunicação!
Café-Grafis -Tem possibilidade de ir para outra emissora ?
Daniela Branzini - Não acredito.
Café-Grafis - Sabe se será substituído por outro programa que trate do assunto cinema ? Daniela Branzini -Não acredito. A solução que tiveram,talvez em função da desaprovação que o término deste programa gerou, foi colocar a vinheta do Zoom antes das matérias dedicadas ao cinema no Metrópolis.
Café-Grafis -Em que projetos você está envolvida atualmente ?
Daniela Branzini - Me convidaram para fazer a curadoria de um grande projeto que pretende unir arte e futebol, um desafio que me instigou bastante e comprei a idéia na hora. Também estou trabalhando na criação de uma programação de webtv para um site especializado em cinema. Tenho vontade de me dedicar também a realização de um documentário, mas ainda não encontrei o tema.
Mas como adoro a adrenalina da televisão, não descarto essa possibilidade..
Café-Grafis -Pode citar um filme de animação de sua preferência ? Daniela Branzini - Essa pergunta é muito difícil, mas diria que utimamente o César Cabral tem me surpreendido. Adoro o Dossiê Rê Bordosa, mas o trabalho de iluminação de Tempestade me arrebatou, adorei!