segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ANIMAÇÃO FEMININA - ADALGISA LUZ

Entrevista com Adalgisa Luz, autora de "Café Paris", postado logo abaixo.
Café-Grafis- A cineasta Adalgisa gosta de café tanto quanto a personagem Magnólia ?
 
Adalgisa Luz- Sim, adoro café, apesar de já estar precisando passar para o chá verde! Porém, a ênfase no “Café Paris” foram as cafeterias como espaços de socialização ou de recolhimento. A Magnólia percorre algumas, sempre muito pensativa. O “Estação Café” em Porto Alegre nos apoiou e lá tiramos muitas fotos que foram base para cenários.

Café-Grafis- Um dos encantos de "Café Paris" é a solução plástica.
Acho que essa estética é que o diferencia da grande maioria dos filmes de animação, que usam traços e cores quase que padronizados. A sua opção foi, justamente para fugir do comum, ou você desenvolve um trabalho nesse estilo ?

Adalgisa Luz- A grande parceria para fazer o “Café” foi a Cláudia Barbisan, diretora de arte, que fez também a arte do “Cidade Fantasma”. Nossa proposta foi a da experimentação. A partir de fotos nossas e de amigos e dos locais que escolhemos para os cenários, ela elaborou sobreposições misturando o desenho do Lisandro Santos com as fotos, alterando cores e incluimos montagens com os grafites que na época fotografávamos pelas ruas da cidade. Ao todo, foram dois anos de trabalho.

Café-Grafis- Outra qualidade que admiro em "Café Paris" é o monólogo pessoal, feminino. Você teve a intenção de deixar isso marcado ?

Adalgisa Luz- Acredito que sim... Quando pensei nessa personagem, pensei também em algumas questões que me ocupavam naquele momento. Eu andava lendo muito Machado de Assis e me chamava a atenção um fato nas narrativas dele que era as garotas não irem estudar fora do país - enquanto os rapazes iam e vinham de Coimbra. Misturei isso com o desejo dela de evasão, de mudar de vida, de escrever um livro. Mas ela é para mim uma anti-heroína que adia tudo. Ela se deixa levar pelo fluxo do tempo, pelos acontecimentos ao acaso, diferente da vida super-atarefada com a agenda cheia que levamos. Então, esta flânerie, esta coisa de ter muito tempo e ficar andando pelos cafés foi como um respiro. Eu mantive isso e ouvi algumas meninas me dizerem: “a Magnólia sou eu, a Magnólia sou eu!”

Café-Grafis- Que espaço você vê para filmes autorais como os seus ?

Adalgisa Luz- Hum. Acho que os de sempre – alguns festivais, às vezes televisão e agora, claro, internet.

Café-Grafis- "Café Paris" no youtube já tem perto de cem mil visualizações.
Que importância você dá a esse canal (youtube) ?

Adalgisa Luz- O “Café” foi finalizado em 35mm, com saída digital para o transfer e outra para vídeo-digital. Eu mandei a lata com a cópia 35mm prontinha, no capricho, para alguns festivais e o filme foi recusado. Um dia, a Cláudia me disse que tinha postado o filme no Youtube. Achei ótimo! Depois de um tempo, ficamos uma semana na página inicial e as visualizações se multiplicaram. Felicidade geral!

Café-Grafis- Como você começou na animação ?

Adalgisa Luz- Fazendo o “Novela” com o Otto Guerra em 1991.

Café-Grafis- Na produção de um filme de animação, qual é a fase que você mais gosta de fazer ?

Adalgisa Luz- Sem dúvida, o roteiro.

Café-Grafis-  Como é a sua participação em filmes de outros realizadores ?

Adalgisa Luz- Gosto muito de trabalhar em parceria, gosto de ficar horas e horas conversando sobre idéias e soluções técnicas e tudo o mais. Para mim, é muito bom. Espero que para eles também!

Café-Grafis- Como você vê o atual momento da animação brasileira ?

Adalgisa Luz- Acho a animação brasileira inventiva, sempre buscando saídas técnicas e artísticas em meio a dificuldades de produção meio absurdas. Gosto muito de vinhetas e clips. Recentemente, vi o clip da música “Longe”, do Arnaldo Antunes, que mistura técnicas diferentes e ele próprio se mistura à animação como um personagem. 

Café-Grafis- A que você atribui a boa produção (qualidade e quantidade) da animação gaúcha (particularmente Porto Alegre) ?

Adalgisa Luz- No estúdio do Otto, dizia-se que era a influência dos argentinos! Sua longa tradição gráfica, a proximidade política e talvez o frio... hahaha! Atualmente, as influências vêm de todos os lados, e o próprio Otto tornou-se uma referência. Além disso, claro, o 3D fascina os animadores mais jovens e os seniors também.

Café-Grafis- Se você tivesse que escolher as obras preferidas de sua filmografia, quais (ou qual) você citaria ?

Adalgisa Luz- Gosto dos trabalhos nos quais participei. Sempre foram oportunidades de estar com pessoas incríveis com as quais aprendi muito.

Café-Grafis- Você pode fazer um breve comentário sobre ele(s) ?

Adalgisa Luz- Coloquei os curtinhas num blog: http://adalgisaluz.blogspot.com/
Ali comento um pouco sobre cada um.

Café-Grafis- Você poderia citar um filme ou cineasta que te influenciou ou influencia (se é que há) ?

Adalgisa Luz- Ah, sim. Jim Jarmush com “Estranhos no Paraíso” e Sofia Coppola com “Lost in Translation”. E alguém mais próximo da animação, Tim Burton, que trabalha com roteiros fabulosos e fabulescos. Aqui no Brasil, gosto muito da Daniela Thomas, especialmente “Terra Estrangeira” que ela assina junto com o Walter Salles. E muitos outros...

Um comentário:

  1. Verei os curtas na net, no blog e estou contentíssima com a oportunidade; vida longa ao Café.Ouvir o discurso de uma realizadora é importante para conhecermos as mulheres que estão produzindo audiovisual no Brasil. Saber que a literatura de Machado tocou a sua obra, faz parte das suas leituras também foi bacana ou muito massa (como ainda dizemos aqui na Bahia). Parabéns!Rita

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