sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CHIQUINHO - A IMPORTÂNCIA DOS FESTIVAIS


Francisco César Filho é cineasta e curador. Chiquinho também preside o Fórum dos Festivais, instituição que certifica e organiza os festivais brasileiros. Esse cara, além de realizar seus filmes (está finalizando seu primeiro longa-metragem, "Augustas"), se preocupa em criar espaços inéditos para difusão de filmes (está por trás do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo e da Mostra do Audiovisual Paulista, entre outros). 
 A fonte dessa energia toda seriam os cafés que você toma pela Augusta ?
Atualmente diminui muito a ingestão de cafeína e outros estimulantes, mas a vibração da metrópole paulistana continua sendo combustível fundamental a alimentar minha energia.

Fale um pouco de seu histórico como cineasta e como fomentador da atividade audiovisual.
Quando comecei a cursar cinema na ECA/USP, imediatamente reativei o cineclube da escola e lá montei minha primeira mostra de cinema. Ao finalizar meu primeiro curta-metragem como diretor ("Poema: Cidade", co-dirigido por Tata Amaral), percebi que sem espaços para o formato curto, não podia exibir o filme - e parti para a criação de festivais. Sem um não há o outro, entende?

O que é o Fórum dos Festivais ?
Uma associação que reúne organizadores de festivais no Brasil e festivais de cinema brasileiro no exterior. Criada há uma década, a entidade congrega hoje 65 associados e reflete bem a importância crescente desse segmento na indústria audiovisual do país.

O que um festival precisa para ser reconhecido pelo Fórum e participar do Guia?
Para participar do Fórum plenamente, há a necessidade de já ter três edições realizadas - mas, antes disso, pode participar como ouvinte. Já para o Guia de Festivais, é necessário contatar a Kinoforum: guia@kinoforum.org.

Qual o principal benefício para um filme em participar de festivais?
Além de possuir um público interessado - normalmente incluindo críticos, cineastas e outros formadores de opinião -, os festivais desfrutam de grande espaço na mídia, o que garante repercussão para as obras que exibe. E não podemos esquecer: todos os formatos de imagem que o circuito de salas comerciais não contempla, como curtas em geral e longas mais empenhados artisticamente, têm nas telas dos festivais sua vitrine privilegiada.

Quantos festivais há no Brasil ?
Estimamos para o final de 2010 a marca de 220 festivais, nas mais variadas latitudes e longitudes de país.

Qual a estimativa de público dos festivais ?
Um levantamento feito pelo Fórum dos Festivais, referente a 2006, apontava mais de dois milhões de espectadores.

No passado (até os anos 1990) havia festivais apenas em algumas capitais e em outras poucas cidades e o seu público era basicamente formado por cinéfilos, atualmente há um grande número de festivais pelo Brasil todo e todos atingem grande público. A que você atribui essa evolução ?
Por um lado, o circuito comercial de exibição afunilou muito o tipo de cinema que entra em cartaz, praticamente obras de grande espetáculo. O espectador ficou meio órfão e descobriu nos festivais a possibilidade de ter contato com cinematografias, gêneros, temáticas e formatos que o interessam. E é bom lembrar que o circuito de salas comerciais atende somente 8% dos municípios brasileiros. Assim, para o apreciador das muitas possibilidades que a arte cinematográfica oferece, festivais tendem a ser mais ricos que a sala convencional.
Por outro lado, os organizadores de festivais e mostras se profissionalizaram, encarando a atividade como de promoção de evento. Essa profissionalização cerca de cuidados sua infra-estrutura, sua oferta de conteúdo e sua promoção. O resultado é o sucesso! 

Qual você acha que é o papel dos governos (municipais , estaduais e federal) na produção e exibição dos filmes?
A discussão é ampla, mas podemos sintetizar da seguinte maneira: a expressão audiovisual é a que mais adequadamente reflete a civilização contemporânea, portanto ela é estratégica para qualquer nação do mundo. Assim, a responsabilidade das administrações públicas é - ou deveria ser - muito grande.

Como você vê a participação de filmes de animação nos festivais ?
Animação tornou-se um fenômeno no Brasil. Há década e meia quase nem era praticada. Hoje, além de uma produção anual que deve estar por volta de um milhar de obras, profissionalizou-se em um grau impressionante, sendo exibida internacionalmente com sucesso. Nos festivais, os filmes de animação sempre agradam ao público.

Pelos festivais que você acompanha, você percebe um crescimento no número de filmes de animação ?
A que você atribui esse crescimento ?
O crescimento da produção animada é fato, basta acompanhar as inscrições do festival Anima Mundi, o principal evento do gênero. A proliferação dos equipamentos digitais é o principal responsável, sem dúvida.

Como está a produção no interior Paulista ?
O interior de São Paulo vive um novo tempo audiovisual. A produção se expande por diversas cidades e os resultados são inegáveis. Um exemplo é o Núcleo de Animação de Campinas, com seus 35 anos de existência e seu imenso acervo. Outro exemplo poderia ser a Rocambole Filmes, produtora baseada em São Carlos, ativa desde o início dos anos 2000 e responsável por obras como o curta de animação “A Traça Teca”.
Também empresas recentes estão obtendo reconhecimento internacional, como a santista LightStar, envolvida nas realizações internacionais “Asterix e os Vikings” e o indicado ao Oscar “Brendan e o Segredo de Kells” e responsável, ao lado da Radar/Mixer (São Paulo) e da Cité-Amerique (Canadá), pela série infantil “Escola Pra Cachorro”.

Você acha que existe uma cara do audiovisual Paulista ?
Curadores internacionais costumam destacar a produção brasileira por ter tantas caras que esta seria sua principal característica. Mas com um pouco de esforço é possível ir além desse clichê. O posicionamento das obras aqui produzidas, que refletem em sua grande maioria aspectos da nossa sociedade, é um exemplo.

Você pode citar um filme de animação de sua preferência ?
É frustrante apontar um só, diante da quantidade e qualidade. Um marco histórico, e que funciona junto ao público até hoje, é "Meow", do carioca Marcos Magalhães, curta vencedor do prêmio especial do júri do Festival de Cannes de 1982 (que pode ser assistido aqui http://migre.me/3V7go).


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