sábado, 23 de abril de 2011

Café com o príncipe



por Marisa Balthasar Soares*
            Inclua uma breve opinião sobre o café, pediu-me Maurício Squarisi ao me convidar para esse blog.  Não estranhe o leitor que, sendo assim acessório o tema, eu comece justamente pelo cafezinho. É que assim fazia Vó Chiquita quando, de ano em ano, chegavam Comadre Idelvina e Zezé lá de Minas. Quando chegava, a pé, Tia Lia ou a sobrinha Dilma, em suas vistas semanais. Quando, fim das tardes, o filho Toninho chegava do serviço. Café em casa de minha vó foi sempre um rito: ela o coava para quem chegasse, fosse de longe ou de perto, fosse de ontem ou de anos. Um paninho de crochê sobre a mesa azul servia de bandeja para a garrafa e as xícaras duralex. E nada mais era preciso para que prazerosamente café e conversa se misturassem.
            Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades? Não sei de pesquisa a respeito do gosto dos jovens pela bebida que, ainda hoje, me tem gosto de conversa aquecedora. Mas sei de pesquisa acadêmica sobre o que parte deles pensa das aulas de literatura sem conversa: “o aluno, de modo geral, rejeita a aula monológica, puramente expositiva, que parte exclusivamente da enunciação do professor e/ou do autor do livro didático” [1]·.  
            A queixa da moçada nada deve para a fala especializada:
                 (...) a leitura de Literatura tem-se tornado cada vez mais rarefeita no âmbito escolar, como bem observou Regina Zilberman (2003, p. 258), seja porque diluída em meio aos vários tipos de discurso ou de textos, seja porque tem sido substituída por resumos, compilações, etc. Por isso, faz-se necessário e urgente o letramento literário: empreender esforços no sentido de dotar o educando da capacidade de se apropriar da literatura, tendo dela a experiência   literária.[2]
            Em ambos os focos a mesma (desanimadora) visão: a literatura - aquele mundo de contradições, de várias ordens, em que, paradoxalmente nos organizamos pela experiência estética - não tem chegado à sala de aula. Seu lugar tem sido usurpado por discursos enfadonhos e autoritários, e que se arrogam o direito de suprimir a leitura do outro. Não, eu não me esqueci da dificuldade que é oferecer aos alunos de hoje textos de épocas distantes, com  valores diferentes, inclusive linguísticos.  É que ao tomar café com minha vó aprendi também como as diferentes temporalidades podem se entrecruzar e inaugurar portos de passagem, até então insuspeitados.
            Algumas possibilidades? Também nesse questionamento vale a pena ouvir os meninos:
                        Os entrevistados compreendem que assistir a filmes ou a peças teatrais             adaptados de obras literárias é uma forma agradável e estimulante de ter contato com a literatura. Compreendem também que estabelecer semelhanças temáticas ou estéticas entre o objeto de estudo e a música ou o cinema  contemporâneos, por exemplo, é uma forma interessante de atualizar os conteúdos e de aproximá-los dos objetos culturais em circulação hoje.[3]
            Quem conhece Os Hai-kais do príncipe tem argumentos de sobra para concordar com essas sugestões estudantis. A animação acerta a mão em mesclar as linguagens música, cinema e literatura. Ambientado na era do rádio (com locução PRIMOROSA de Vidal Ramos!), o roteiro dá conta de explorar os aspectos biográficos e historiográficos entorno de Guilherme de Almeida e de provocar a leitura de seus haicais, cujos sentidos são lindamente desdobrados em músicas e desenhos. 
            O texto literário não deve ser traído, resumido, resenhado, para que os alunos tenham lá uma distante (e perniciosa) ideia do que é ele. Para responder às expectativas de leitores que lidam tão bem com diferentes semioses, como esses nossos jovens, não faltam produções culturais inteligentes e interessantes que podem conduzir à experiência da leitura literária, in stricto sensu. Explorá-las didaticamente seria um “bule cheio” para muita conversa...
            O trabalho de Maurício e sua equipe é uma delas.  Vi e revi. E quis reler o poeta. Vi também o making in of. Aliás, para os olhos leigos, saber dos bastidores da animação foi um pouco como ver o mágico explicar o truque: entendemos todos os passos, mas saímos com a sensação de que a mágica mesmo nos escapa. Ainda permaneço me perguntando como a animação dos desenhos encarnou tão perfeitamente a música e a poesia.           

* É doutora em Letras pela FFLCH/USP e professora universitária.
[1] CEREJA, William. Uma proposta dialógica de ensino de literatura no ensino médio. Tese de doutorado. PUC/SP, 2004.
[2] BRASIL, MEC. Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM). Volume1: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006
[3] CEREJA, William in op. cit

Um comentário:

  1. Maurício. Acabei de ver o filme que vc tinha me dado e agora, coincidentemente venho no seu blog e é o mesmo filme.
    É lindo, sensível, colorido, poético, de uma delicadeza tocante. Adoro essas ligações que vc faz entre uma imagem a outra. Parabéns.
    Também adorei a fala de Marisa Soares que tão bem nos lembra do cheiro de café de nossas avós e de nossas mães.
    Bjs

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